Afonso, Tia Zita e Flávio são os que estão sentados na pedra, onde hoje é a Rua 11 de Setembro.
(eu sou o de camisa azul - de braços cruzados)
O
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topônimo Araripina ainda é para
alguns uma incógnita, para mim, a minha cidade, onde nasci, onde estou criando
meus filhos e desejo nela viver para sempre. E nesse novo ritmo de dissertar,
uma nova ideia para incorporar os meus novos artigos de opinião, me bateu uma
saudade doida e uma imagem datada de 1980, passou como película em minha
lembrança de uma infância/juventude em que vivemos.
O cenário ainda de um lugar em construção, rústico (no sentido literal
da palavra), traz uma paisagem ao fundo as casas de Dona Mozarina, Dona
Gualterina, do Seu Chicão, de Dona Pepê e de seu Zé Belo. Do “mato” uma nesga
de estradinha que se mantinha como passagem e que servia de acesso para se
chegar ao logradouro Joaquim Rodrigues Nogueira.
Uma pedra enorme ficava bem no meio da rua (que seria rua ainda não se tinha nem o projeto para transformar em tal) de terra batida e ainda sem
saneamento (Rua 11 de setembro), que ficava defronte da casinha simples com
paredes internas dividias por papelões de minha avó Avelina de Lira Bahia. Os
bem afortunados (sentados na pedra na primeira foto) eram os “moços” que chegavam de São Paulo para conhecer o sertão
e instalavam-se na casa da família que se reunia toda na casa da matriarca para
apreciar a comida caseira feita por Tia Zita e Tia Corina, todas duas prendadas
na arte da culinária sertaneja.
A turma daquele tempo convivia com as mesmas diferenças sociais. As
vestes simples, os pés descalços, as roupas que chamávamos de “conjunto” – calça
e camisa da mesma cor – era o retrato real de como vivíamos e convivíamos com
as dificuldades, os mesmos dilemas da pobreza (quase extrema). Faltava tudo. Os
modelitos apropriados para as condições já demonstravam a penúria e o que em
verdade nos tornava todos iguais. Mesmo com a tristeza, a assistência social
que nem conhecíamos, a fome, era superada com os sorrisos, as brincadeiras, a
amizade, o compartilhamento da mesma situação e ninguém ali naquele pedaço
sofrido era melhor do que ninguém.
Eu, meus irmãos, meu primo Flávio, Lêlo de *Zé Mendes, Paulo de Seu
Jota, Jotinha de Zé “Birrim” (o noveneiro da época), Itinho e Wellington de Seu
Valdeci e Dona Francisca, Wilma, Cássia e Deda (filhos de Wilson Pelado), Verônica,
“éramos todos iguais” e da mesma classe social, aliás, nem se falava nessa tal
classe social na época. Era rico e pobre. Só isso.
Carimbada, cai no poço, “picos”, as peladas com traves de pedras ou
sandálias (todos jogavam bola descalço porque não era permitido usar sapatos,
quando alguns privilegiados os tinha) praticadas no calçamento irregular de
paralelepípedo, e tantas outras brincadeiras que fazia com que nem lembrássemos
das dificuldades diárias. Foi um tempo muito difícil que durou décadas.
*Zé Mendes era a pessoa responsável para recolher os bilhetes de entrada
adquirido na bilheteria do Cine Capri e também para identificar o sujeito
através da identidade, quando o filme era considerado “impróprio”. Muitas vezes
eu percebi que ele deixava o camarada entrar para assistir aos filmes apenas
por sua estatura e fisionomia. Eu tinha passado uns dias dos meus 18 anos e
queria desfrutar da maioridade assistindo uma exibição braseira. Como eu era
raquítico, pouco mais de quarenta quilos, e aparência de menino que esqueceu de
crescer, fui barrado por seu Zé Mendes que depois de muita insistência e de
garantir que a identidade era realmente minha, permitiu a minha entrada no
“cinema”.
Araripina certamente tem muita história pra contar. Vamos contar a nossa
e a sua história.
Qualquer informação que possam nos repassar, envie pelo nosso contato.


7 comentários
Um belíssimo texto que nos remete às douradas brincadeiras da nossa infância. Me lembrei agora do meu e nosso amigo Perninha, que morava aí nesse setor. Tempos bons onde mesmo as mazelas eram amenizadas pela solidariedade e inocência típicas da época.
ReplyUm belíssimo texto que nos remete às douradas brincadeiras da nossa infância. Me lembrei agora do meu e nosso amigo Perninha, que morava aí nesse setor. Tempos bons onde mesmo as mazelas eram amenizadas pela solidariedade e inocência típicas da época.
ReplyPerninha, Baza, Fábio de Dona Nega e outros personagens, farão parte sim, das dissertações que contarão muitas histórias que marcaram as nossas vidas. Aguardem!
ReplyPerninha, Baza, Fábio de Dona Nega e outros personagens, farão parte sim, das dissertações que contarão muitas histórias que marcaram as nossas vidas. Aguardem!
ReplyRealmente essas lembranças nos faz refletir e chegar a conclusão que realmente éramos felizes e me emocionou muito fazer essa retrospectiva das nossas vidas e nossos momentos juntos já que eu fiz parte dele e sinto saudade
ReplyRealmente essas lembranças nos faz refletir e chegar a conclusão que realmente éramos felizes e me emocionou muito fazer essa retrospectiva das nossas vidas e nossos momentos juntos já que eu fiz parte dele e sinto saudade
ReplyRealmente essas lembranças nos faz refletir e chegar a conclusão que realmente éramos felizes e me emocionou muito fazer essa retrospectiva das nossas vidas e nossos momentos juntos já que eu fiz parte dele e sinto saudade
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